Deepening the meaning of peace
Portuguese version
Aprofundando o significado da paz
Arny Mindell é entrevistado por Sarida Brown ( Revista Caduceus,
Londres, Verão 02
http://www.caduceus.info/home.shtml)
O que podemos aprender do conflito? E o que é paz? Arny Mindell e
sua esposa Amy são conhecidos pela sua abordagem, chamada "trabalho
do processo" (process work), o qual eles levam para a "arena" de
conflito pelo mundo.
Sarida Brown: Nós estamos vivendo um tempo de grandes incertezas.
O coração do mundo parece estar sangrando, e existe um sentimento
de que a psyche humana está sendo profundamente sacudida.
Arny Mindell: De uma forma está sangrando - e de outra não
está sangrando mais do que geralmente está. Guerras e conflitos
tem sempre sido levados a 2o plano: é como ter um vírus interno
que está esperando para formar uma gripe. Todos os problemas tem sempre
estado lá, é porque simplesmente as pessoas raramente o trazem à superfície.
Então, por um lado estou feliz que estão emergindo - pode ser
a chance de trabalha-los para uma mudança.
Os problemas estão sendo trabalhados ?
Não realmente, pelo menos como prioridade. Todos pensam que o governo
deveria estar trabalhando com eles, mas isso é ingenuidade porque
as pessoas no governo são simplesmente pessoas comuns. Poucos deles
possuem algum treinamento em psicologia ou em lidar com pessoas, ou treinamento
espiritual que possa ter uma influência no processo de grupo. Então,
tem que ser feito por indivíduos e pequenos ou grandes grupos: é onde
as grandes mudanças precisam acontecer e o governo seguirá em
momento posterior.
Então o processo de grupo é uma das chaves fundamentais para
trabalhar com este "vírus"?
Todos nós temos problemas com outras pessoas todo o tempo, e poucos
de nós trabalhamos estes problemas. Poucos de nós sabem como
ir a fundo o suficiente para então podermos visualizar tanto nosso
ponto de vista quanto da outra pessoa. Se apenas poucos de nós o faz,
faz sentido que nossos países paralisam em um ponto de vista ou outros
entram em conflito com outros, já que é isso que quase todo
mundo faz a maior parte do tempo na rotina de suas vidas.
Este ano as pessoas estão vendo uma explosão de violência
no mundo.
Eles vêem este "vírus" se libertando. Eu não
diria que a violência repentinamente explodiu; sempre esteve lá entre
Mulçumanos e hindus, entre os EUA e todos os outros grupos na terra
que têm estado chateados, invejosos e zangados com o comportamento
dos EUA, entre palestinos e judeus em Israel.
Eu recentemente estive conversando com mulheres
de Israel e Palestina. O conflito interno que eu pressinto está muito crú e mal resolvido,
entre o seu ideal de paz por um lado, e a sua experiência com o medo, ódio
e insegurança.
Eles parecem absolutamente racionais para mim, eles
amariam a paz e esperam por isso. Isto pode não aplicar nas pessoas que você tem conversado,
mas a maioria dos movimentos e ativistas pacifistas não estão
realmente em paz: eles estão principalmente contra a raiva e a violência
- eles estão fazendo guerra com guerra. O resultado disso é que
dentro deles existe uma rebelião: eles querem paz, e eles estão
ainda terrificados e zangados como todas as pessoas comuns estão.
Eu não quero criticá-los por isso; eu quero dizer a eles que
eles estão absolutamente fazendo o melhor que eles podem, e que eles
simplesmente não têm se aprofundado nos seus próprios
medos, suas raivas e suas inseguranças.

Então como as pessoas fazem isso?
É fácil de certa forma: é um
passo no desenvolvimento pessoal.
De uma forma você diz "eu amaria a paz e estou trabalhando pela
paz, mas eu não posso evitar de ficar com medo de meu vizinho que
quer me matar, e eu também gostaria de acionar uma defesa contra meu
vizinho. O próximo passo seria dizer, " Aha! O vizinho pode me
matar, e eu posso matar meu vizinho para me defender, então a morte
está muito perto. Todo mundo que é uma zona de guerra sabe
que a morte está próxima, no sentido negativo de realmente
levar um tiro, por exemplo. Mas existe outra forma de morrer, no sentido
positivo de deixar pra lá: deixar de lado sua identidade pessoal pelo
menos temporariamente, "pulando fora", tendo uma visão geral,
e então existe um consenso sobre tudo uma vez que já aconteceu.
Nós temos feito isso em um processo de grupo intenso; é simplesmente
dramático ver os resultados disso.
Isto soa como um processo inicial, como o ritual
de morte nas pirâmides
do Egito. Mas como uma mulher na cidade de Gaza, cuja vizinhança acabou
de ser bombardeada por um F16, pode ser capaz de passar por aquele outro
tipo de morte quando a forma negativa de morrer está tão próxima?
Cada pessoa possui seu próprio processo, e não há nenhum
caminho que seja certo para cada um. Nós trabalhamos com suicidas
em potencial (homens-bomba) que foram capturados antes de carregar a bomba.
Eles disseram uns para os outros: " Minha vida não é nada;
mais importante é a causa pela qual me dedico, então estou
pronto para morrer." O próximo passo para esta pessoa que sabe
que existe algo mais importante do que a própria vida é estar
pronto para desistir de sua própria vida no sentido de deixar de lado
sua identidade pessoal. Agora eles podem correr atrás da grande causa,
que não é a destruição de outras pessoas, mas
a melhoria de seu próprio povo e a melhoria de todos os povos. Isso
significa deixar sua própria identidade ir embora, de forma que as
pessoas que estão em zona de guerra estão mais próximas
deste processo do que muitos de nós percebam. Eles estão fazendo
isso fisicamente ao invés de psicologicamente.
O conceito do trabalho psicológico e espiritual em uma zona de guerra
- nós temos grandes exemplos como Gandhi, Thich Nhat Hanh e outros.
Mas e com relação a pessoas comuns capturadas em conflito como
em Israel e na Palestina: como eles podem transformar este posicionamento
de abraçar a morte por sua causa política, para abraçar
a morte no sentido positivo, pela humanidade?
Existem muito mais pessoas do que você imagina que são capazes
disso. Amigos de nosso grupo acabaram de trabalhar em Israel e nos contou
uma impressionante cena de conflito onde Palestinos e Judeus estavam trabalhando
juntos e uma pessoa disse para alguém do outro lado: " Eu odeio
você. Eu poderia matar você. Eu vou te matar." Então
alguém deste outro lado teve uma inspiração surpreendente,
jogou-se no chão em frente ao agressor e disse, " Se tirar a
minha vida fará a sua e a vida de todos melhor, então por favor
tire-a ." Bango! Tudo parou. As pessoas se sentaram e começaram
a conversar. È bem dramático e efetivo levar a morte em um
ambiente de trabalho.
Estas coisas podem acontecer, mas são ainda muito raras. Eu acho
que o mundo está na beira tomar o próximo passo e ainda não
o fez.

Você quer dizer que precisa chegar próximo a morte para tomar
o próximo passo?
Todos nós precisamos reconsiderar o que nós não sabemos
sobre o conflito. Então nós precisamos considerar todos os
métodos convencionais e alternativos, e então temos que avaliar
detalhadamente e perguntar quais métodos funcionam e quais não
funcionam, e finalmente - e eu tenho visto e praticado com mais de 100.000
pessoas por todo o mundo - a única coisa que funciona é ajudar
as pessoas a ir a fundo de si mesmas enquanto estiverem em conflito, e dize-las
- " Confie em seus sentimentos. Se você odeia alguém, não
deixe de lado. Vá a fundo. Por que você não gosta da
outra pessoa? Nós compreendemos que talvez seja através de
gerações. Talvez você odeia a outra pessoa em parte por
causa de sua própria estória. Então, acabe com isso
no sentido de terminar com este sentimento em você. Afirme o que você pensa,
afirme o que você sente, e então tenha a coragem de ir a fundo
nos seus sentimentos de raiva e desespero, leve-os dentro de você e
reconheça qual parte de você está se comportando como " inimigo",
e pare com este " inimigo'. È assim que as coisas mudam.
O que você faria em relação a o que está acontecendo
em Israel e na Palestina?
O que eu faria também em relação aos Mulçumanos
e Hindus em Gujerat ? Eu acho que o primeiro passo é olhar para o
problema através de muitos ângulos. A televisão pode
ajudar muito: um programa de televisão voltado para a discussão
dos sentimentos das pessoas que estão em conflito, processos de grupo
onde as pessoas são apresentadas para interagir e permitidas a exibir
seus sentimentos, e interação na televisão com algumas
pessoas especialistas que entendem sobre conflito: isso seria muito útil,
porque quando as pessoas vêem grupos grandes resolvendo as coisas, é uma
melhoria diante de uma situação pública.
Eu também recomendaria que cada um de nós percebesse exatamente
os sentimentos oscilantes que nós temos sobre nossos vizinhos ou sobre
alguém que nós não gostamos, e que nós possamos
consentir esses sentimentos e bota-los para fora: " Eu não suporto
aquela pessoa. Eu odeio aquela pessoa" ou Eu estou receoso de que me
matem, eles são pessoas más." O próximo passo é ir
a fundo e perguntar a si mesmo, primeiro, " De que forma aquela pessoa
representa um perigo?
Então pergunte, "Como uma família suporta meu ódio
pelo outro? Por que as pessoas suportam isso? As pessoas poderiam afirmar
isso, e dizer " Minha família não gosta dos outros grupos
e tem bons motivos.Deixe me falar para os membros da minha família,
não somente os que estão vivos mas também os mortos.
Deixe me conversar com aqueles que morreram em batalha ou na guerra." Então
você poderia conversar com a sua avó que morreu, com seu bisavó que
morreu. È claro que é uma experiência interior, não
um diálogo externo, mas isso pode ser feito na frente de outros também.
Eu iria sugerir ponderar, levar dez minutos do dia, e conversar com alguém
que morreu com se ele estivesse vivo, na sua imaginação como
se uma pessoa morta pudesse de alguma forma falar. Existe muita sabedoria
nestas pessoas. Os mortos raramente possuem alguma forma de vingança
ou ódio que eles tinham quando eram vivos.

Aqueles que morreram, os parentes dos parentes,
talvez aqueles que morreram com violência, são aqueles que na sua imaginação
estão justificando seu medo e antagonismo que nós seguramos.
Está correto e é por isso que nossa primeira imagem das pessoas
que morreram é que a mesma que quando elas eram vivas. Contudo, esta
imagem muda quando as pessoas sentem os espíritos dos mortos e os
reencontram, para então falar. A primeira lembrança é uma
estória que nós sabemos ou que nos foi contado, e é geralmente
sobre o ódio de gerações. São nossos antepassados
que estão em nós: não é que nós é que
odiamos os outros, é que nós temos todos os espíritos
atrás de nós dizendo " Mate-os, pegue-os." É por
isso que não dá para negociar um conflito, porque existem os
sentimentos profundos de nossos antepassados que datam de séculos,
que devem ser discutidos e trazidos ao presente. Não acontece da forma
que nós pensamos: como eu disse muitos destes espíritos repentinamente
aparecem e dizem espantosamente coisas desconectadas. Um exemplo foi uma
mulher que perdeu sua família em um campo de concentração.
Quando ela os sentiu na sua imaginação, alguns disseram-lhe, " Sim,
nós fomos idiotas, nós ficamos muito, e nós estivemos
presos demais em nossas rotinas de vida. Agora é hora de você expandir
sua mente, mais do que nós. Os mortos não possuem tanto ódio
consigo quanto nós pensamos.
O problema é que as pessoas estão cansadas com sua realidade
diária. Nós nos proibimos de entrar em contato com planos mais
profundos, mesmo que eles estejam lá, mesmo que nós saibamos
que no escuro da noite, nós conversamos com nossos avós mortos. È por
isso que a guerra continua: nós simplesmente não chegamos a
planos mais elevados.
Você está dizendo que a paz não pode ser feita através
de um nível externo?
A paz não pode ser feita simplesmente por um povo conversando sobre
uma lista de acordos práticos. Eles são muito importantes e
devem ser o primeiro passo, mas se existe guerra contra o mundo do sonho,
então haverá constante conflito interno e nada será resolvido.
Nós precisamos de ser multidimensionais na forma que nós abordamos
os problemas neste planeta. A física quântica descobriu alguns
anos atrás que você não pode fazer as coisas com as forças
de Newton; você precisa de ser mais sutil.
A guerra significa marginalização e derrotar ou reprimir alguém.
Para realmente fazer a paz nós temos que nos tornar conscientes em
como nós aprendemos a consentir as coisas e chegar a planos mais elevados.

Então o que significa paz?
Significa algo diferente para todos. Para mim, significa
ser o chão
sobre o qual andamos. A paz significa ter contato com aquela coisa profunda
dentro de nós que nós vemos e sentimos, " Sim, meu lado é importante,
ainda sim existe algo de verdadeiro no lado da outra pessoa também." Isso é paz.
Paz não é antitética ao conflito; entende as coisas
de um terceiro ponto de vista e vê como todos estão tentado
fazer o seu melhor.
Então paz é um processo profundo de aprendizado em como ir a
fundo de você o suficiente, através do conflito inclusive, para
ver os dois lados como sendo de alguma forma corretos. Quando você tiver
finalmente feito isso, então não há guerra. Ao invés,
existirá um diálogo fluido.
Onde isso está acontecendo?
Está acontecendo dentro de cada ser humano que eu tenho encontrado
quando eles vão para cama à noite. Eles dormem e sonham e vão
a fundo no seu sono profundo sem sonhos, simplesmente escuridão e
silêncio, e então eles acordam para a realidade do cotidiano
e estão de volta a isso. Então acontece todo o tempo.
Então voltando a Israel e Palestina: qual é o nosso papel,
aqueles de nós que estamos fora da arena?
Para aqueles de nós que não estão diretamente em uma
zona de guerra, nosso papel é não criticar aqueles que estão
e pensar que eles podem estar melhor - isso nos fará fazer parte do
cenário da guerra. A guerra é um fenômeno não-localizado,
que significa que não poderia haver guerra em um ponto da terra se
não tivesse guerra em todo lugar dentro de nós mesmos. È como
um vírus: se está proliferando em uma parte do mundo é porque
ninguém resolveu o problema do vírus em lugar nenhum. Então
aqueles de nós fora da zona de guerra precisam trabalhar em conflito.
Nós precisamos saber que nós estamos projetando nossos conflitos
não trabalhados nos Palestinos e Israelitas, e nós precisamos
enviar a eles boas vibrações. Nós precisamos lembrar
o quanto nós temos sido machucados e agredidos e como estamos machucando
e agredindo de volta, percebendo isso e não projetando neles. Isso
seria um grande começa, e muitas coisas coisas acontecerão
em seguida automaticamente.
Nós estamos todos envolvidos em toda guerra, mesmo se estamos distantes,
e nós estamos todos envolvidos no processo de paz.
Nós resolvemos os problemas dos Palestinos e Israelitas em nossa
própria casa. No Ocidente existe o conflito que é parte religioso
e cultural. Nós temos que pensar, como nós não temos
levado nossos valores mais profundos a sério? Em que nós realmente
acreditamos? E nós colocamos em prática esta crença? È desta
forma que podemos contribuir para a paz.
